O ápice das
montanhas cobertas por nuvens acinzentadas compunham aquele cenário receptivo
de Serra Talhada PE, queria ter tido mais tempo para observar aquela obra
artística do Criador mais de perto. As casas a primeira vista eram pequenas, a
maior parte das ruas eram feitas de paralelepípedos, e cidadãos do sorriso
aberto. Fiz uma oração ao entrar naquela cidade: “Senhor, o que tem para mim nesse tempo?"
Chegamos
naquele sertão Pernambucano, eu fiquei hospedada na casa dos pastores amigos meus
da época de seminário, tinham poucas horas antes do primeiro culto naquele
domingo, descansamos rapidamente e fomos ao ponto de culto da IPR no centro, foi o meu primeiro contato com o povoado de Serra. Sinceramente, surgiu um frio na barriga
pela saudação que tive que trazer naquela noite e ao mesmo tempo uma alegria
imensa em poder viver tudo aquilo; no inicio do culto preocupava-me: “Caraca Deus, será
que eles vão entender o que eu vou falar no púlpito? será que vão saber as
músicas as quais eu estou acostumada a cantar?”. Durante a pregação do Pr.
Samuel eu ficava meio confusa com as gírias nordestinas usadas por ele, frequentemente perguntava a sua esposa: “O que isso quer dizer mesmo?”, algumas coisas soavam
como outra língua para mim! Não sabia que eu tinha sotaque forte até perceber que o meu "Senhoorrrrrrr, amorrrrrr, favooorrr" cuiabano trouxeram várias piadinhas.
Na
segunda-feira, uma caravana de 46 pessoas de Minas Gerais estavam para chegar, também
um grupo de pastores e missionários de Porto de Galinhas PE, eu juntamente com os
pastores e outros dois amigos missionários nos apressamos em deixar tudo pronto
para recepcioná-los. Que correria! Eu estava com uma curiosidade enorme de conhecê-los já
que todos falavam há dias dessa galera que estava por vir. No final da tarde
todos chegaram, os conheci naquele mesmo dia, me encantei com o tamanho
carisma, energia e disponibilidade daquelas pessoas, eu pensava comigo: “Cara,
que gás é esse dessa turma, é até difícil de acompanhar”. A
alegria era contagiante! Eles tornaram-se especiais em tão pouco tempo!
Eu
queria conhecer tudo o que pudesse enquanto estava ali! O couro me atraiu, eu até queria uma sandália de couro pra mim, mas decidi levar para a minha mãe e minha
tia como havia prometido, a pessoa aqui não estava esbanjando grana para tantas compras
assim, mas lembrancinhas muitas lembrancinhas típicas obviamente quis levar, inclusive
a rapadura. Por onde eu passava no
centro da cidade tinha alguém com sandálias, ou chapéu, ou bolsas, ou pulseiras
de couro, se pudesse levaria um de cada.
Que café da manhã era aquele? Eu não sou familiarizada com tanta fartura no café da manhã, as vezes nem sento para tomar café pra falar a verdade, e no sertão comi até peixe frito no período matutino. Confesso, que eu tinha sérios receios ao comer os
pratos típicos, nunca fui nojenta com comidas, mas, enfim, a carne de bode me dava repulsas, mas
curiosamente experimentei o tal do “mungunzá” e também a famosa carne de bode, e não é
que gostei, sim eu comeria outra vez!
As
origens do sertão elucidaram o nosso entendimento sobre a cultura e
comportamento do povo pernambucano, a minha visita ao museu do cangaço me fizeram infiltrar na história social, religiosa e artística nordestina. O que não podia
faltar era um dos maiores espetáculos sobre Lampião e Maria Bonita justamente
na semana que eu estava por lá. Ah a beleza da arte! O cenário, os figurinos, a iluminação, a dança típica
(xaxado), a música regional, a atuação, as boas companhias, o frescor gelado
noturno (por incrível que pareça estava muito fresco), que noite agradável!
No
último dia, eu tive um momento único! Sentada no chão como estava, parei para observar tudo o que estava vivendo, enquanto escutava alguém ao meu lado cantar
com o violão graciosamente, pela primeira vez eu não queria cantar, nem falar nada, não
queria tirar fotos, só queria ouvir a canção e fotografar na minha memória tudo o que eu havia vivenciado ali! Não queria esquecer daqueles dias! Então fiz
outra oração: “Obrigada pelo presente Deus, sinto-me viva outra vez, é bom
estar de volta”.
Meu caro leitor, se eu puder te aconselhar a algo, digo: Invista em viagens com propósitos missionários/ministeriais, além da bagagem ministerial/espiritual que você armazena para si, sem dúvidas, o conhecimento cultural enriquece a sua formação, isto é, conhecimento e experiência é algo que ninguém pode roubar.
Eu sempre amei conhecer lugares e pessoas, uma aventureira nata como alguns dizem, descobri através dessas viagens que posso me adaptar rapidamente a cultura que me proponho, mas eu também descobri que viagens como essa que fiz para o sertão nordestino me deixam muito mais realizada do que as que fiz como turista apenas, talvez porque tenha um propósito maior do que eu mesma. Por isso digo novamente, ore, invista, conheça, e vá, isto é reino! Garanto que a sua cosmovisão pode mudar muito, ás vezes vamos com a mentalidade de ministrar sobre as pessoas, e no final, nós é quem somos ministrados!
Na
PARTE 3 estarei relatando sobre o tempo de missões, ministério, espiritualidade
durante os dias ali.
KELLY GONÇALVES